Enquanto acendia mais um cigarro olhou em volta.
Nada daquilo lhe apetecia. Não queria estar ali, naquele momento, a ouvir aquelas histórias.
Nunca tinha sido particularmente bom a ouvir histórias onde se pudesse rever; nunca foi bom no reencontro com o seu passado.
O som que vinha da boca do parceiro de jantar foi diluindo com os ruídos do restaurante, acabando por se tornar isso mesmo - mais um ruído de fundo.
As ironias que a vida arranja. Tentando fugir ao seu passado, numa corrida desenfreada, sem pausas, este acaba sempre por o apanhar.
Não dá para escapar.
O problema é que com esta idade já devia ter aprendido. Já devias saber melhor, meu amigo.
Podes fumar os cigarros que quiseres, podes abafar a voz do teu passado (aquela que se manifesta através dos discursos dos outros - sim, porque a que vem da tua cabecita não dá para abafar), em múltiplos discursos da multidão anónima, mas não podes escapar ao teu passado.
É estúpido, mas é verdade.
E aqui estás. Quando menos esperavas, no sítio onde menos esperavas, com as pessoas que menos esperavas.
Neste cenário aparentemente inocente, a boca do teu amigo abre-se e o que vem de lá não é aquela conversa monótona do desinteressante dia-a-dia, nem a excitação de uma boa notícia a partilhar com um amigo, nem um episódio engraçado, nem uma aventura perigosa, nem um problema sério.
É simplesmente o teu passado.
Que te bate à porta.
O rapaz tinha conhecido a rapariga por acaso.
Um daqueles cruzares que acontecem vezes sem fim na loucura destas cidades grandes. Passa-se, caminha-se, cruzam-se sem dizer palavras, muitas vezes sem trocar olhares. Nada.
Naquele dia ele olhou, olhou e não sabe porquê. Mas olhou.
Embora o olhar dela estivesse perdido lá para o fim da rua, lá onde não se sabe bem o que pára, mas deve parar alguma coisa, pois está-se sempre a olhar para lá, o olhar dele fixou-se no dela.
Ele diz que não sabe bem o que viu, mas que viu. E isso mexeu bem lá dentro.
Mas, infelizmente, como nas grandes cidades quem manda é esse vírus chamado ‘relógio’, ele seguiu. Seguiu em frente e não pensou mais naquilo. Talvez o mais correcto fosse dizer que não conseguiu pensar mais naquilo, pois o que sentia lá dentro bloqueava qualquer pensamento.
Seguiu…